terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Caixa Escura


    A chuva vem com força, batendo no vidro da janela e embaçando sua visão do seu encantado bosque particular de concreto. Essa força ecoa nos telhados, na calçada e o barulho se confunde com a musica que você escolheu para gastar esse momento. Vez ou outra aparece um trovão, mas nada tão forte como ela. Lágrimas do céu, enche rios e ruas, entra em bocas de lobo e casas. Rajadas de vento fazem ondulações na água, e silvam no telhado.
    De uma casa de espelhos e molduras. De fotografias e recordações, histórias e vidas. De silêncio que ainda não sabe se significa calma e tranquilidade ou a paz que o pânico e a melancolia nos trazem nas suas mais absurdas visitas na noite. Noite, em que as nuvens correm pelo céu de estrelas, e o brilho tênue e azulado da lua cai sobre a cidade. Onde janelas abertas espantam o calor e trazem para perto quem se quer, no balançar do vento na cortina.
    Você se pega em um momento que nunca imaginou estar. Nem nos seu sonhos mais loucos e devassos. Você se sente como jamais imaginou sentir. E incrivelmente bem. E veste simplesmente a sua camisola e chinelos. A xícara verde, a pilha de papéis virada de cabeça para baixo, e o livro ao lado. Pilha de papéis insignificante para quem queira. Pilha de papéis que contem pelo menos uma vida. E a sua. Na sua cabeça passam cidades e sorrisos. E você não sabe se é tomado pelo estranho terror que compulsa da nostalgia ou pela risada diabólica de quem não espera o que viria, mesmo querendo, e se surpreende, tentando contornar o baque inicial da surpresa, e assumindo as rédeas. Porque afinal, sobre o tapete, sob esse teto, frente ao espelho, que reflete um quarto, uma janela e uma cidade inteira, refletindo depois você, encontrando o rosto pálido, é só você contra você mesmo.
    Pilha de papéis manchadas com tinta, letras para quem quiser as fazer vivas. Ou para quem, insensível e impossibilitado de perceber, quiser, simples manchas insignificativas. E você suspira. Sozinha numa manhã qualquer. Não sozinha no mundo, mas nesse instante  diabólico, você põe muitas coisas em jogo, inclusive isso. Inclusive se o vizinho que você vê, o observa de sua sacada enquanto estende roupas, é mesmo só alguém numa sacada estendo roupas, com o olhar colado em você. E se você realmente pode ser tão fria ou tão boa.   
    São dois lados de uma mesma criatura.O que fica com olhos injetados de sono e café, que quer fazer as malas a qualquer hora e sumir para qualquer lugar que não seja esse, com esses e que, no próximo amanhecer, têmporas doloridas e torcicolo, não lembro de mais nenhuma loucura no papel ou pensamento da madrugada anterior.
    O lado ensolarado que passeia com o cachorro, interage com todos, conversa com as velhinhas da rua, faz café, almoço e janta, dança na chuva e cuida das flores. E o lado mais inescrupuloso, e estranho, que existe mas repulsa dos dois lados, é um ter o outro, e ocuparem o mesmo.
    Porque talvez o lado mais diferente e menos evidente das folhas de papel é pensar demais, excessivamente a ponto delas estarem materializadas, físicas como você. O resto é cenário. O problema sempre será que não há problema. E por isso, toda essa melancolia nesse mar incrível que não é de rosas, mas tem cheiro de mar e sol, às vezes se confundindo com cheiro do seu café.
    São pessoas, amores e olhares, numa cidade, num mundo, num lugar em que não se sabe mais o que é amor, nem mais a função de uma simples cama. E o sino da catedral te lembra que há horas seu café da manhã acontece, há um dia pela frente. E uma vida. É uma caixa escura, que nos cabe abrir e dar a luz, para que se façam vivos e claros os sentimentos, mapas e quinquilharias.
    Talvez o nosso problema seja pensar demais.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Caderno

  É meio estranho quando tu te pegas no meio de uma tarde sentindo falta de tudo o que tu reclamavas e agora tu não tens mais. Agora tu tens companhia da saudade e de mais nada, tu sabes. Tu nunca imaginaste ficar tanto tempo assim, sem tudo o que mais te faz tu mesma. Sem tudo que é o que tu és. Sem tudo que tu sempre tiveste a toda hora, mesmo do outro lado da cidade, pelo menos na mesma cidade. Nas tardes e tardes gastas em sofás, tapetes, piscinas e gramados falando sobre a vida, ouvindo um som, e rindo. Rindo de qualquer coisa, de tudo. Sendo simplesmente feliz. Agora tu nunca te imaginaste sem tudo isso. Porque era tão incrível que não parecia ter fim. Era tão bom que não dava para pensar no que ia acontecer depois. Depois não importa. Importa agora. Não teve fim, só uma estrada, o que vai volta e já volta. E tudo volta a ser como antes. Os corpos ao sol, ao céu, ao mar. Os sorrisos na câmera, os chinelos alinhados no chão, roupas espalhadas pelo quarto, vestidos, saltos, unhas e resolução de amores mal resolvidos, mas deixa que tudo dá certo, “let’s enjoy the party”. Músicas, cidades, nascer do sol e histórias para contar. Por ruas e sorvetes, no suor, na lágrima que escorre e cai na página da história que tu estás lendo.
    Da lágrima de emoção por tudo isso, por essa besteirinha, simples, pode ser. Por essa vida, por essas dez mil amizades, oitocentos quilômetros e uma noite. Lágrima que escorre pelo teu rosto, e cai na página já escrita da nossa história, numa das muitas páginas de nossas vidas.
    Então juntos, vamos desvendar mais um mistério dentro da noite, vamos descobrir uma nova página em branco. Para sonhar com toda a infinidade que o sonho permite, e viver toda a loucura, com essa nossa fome pela vida e energia que só nossa idade permite.
    E é assim, simples redação da vida, que escrevemos todos juntos, entre mergulhos, pipocas e devaneios cor-de-rosa, ouvindo a música que faz lembrar de história toda, te fazendo querer seguir sempre, mais em frente.
    Caro amigo, fazemos assim, eu pego o caderno, tu a caneta, e o outro ali, ajeita a foto. Para criaturas como nós, sempre terá mais uma página em branco a cada amanhecer, a cada segundo, para viver. Para sentir o simples prazer de respirar, de ser, de estar vivo e não se preocupar em conjugar.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2010

Reveillon-Rio-Conventio

Em 2010 eu desejo pra você MENOS.

Menos estresse. Menos brigas. Menos violência. Menos inveja. Menos dor. Menos problema. Menos guerra. Menos depressão. E menos pessoas em hospitais; em médicos. Menos doenças. Menos lágrimas. Menos injustiça. Menos desamor. Menos rancor. Menos, muito menos desafeto, tapas, socos, ponta pés. Menos drogas. Menos mortes por besteira. Menos neurose. Menos mentiras. Menos preocupação. Menos dor de cabeça. Menos falta de vontade. Menos roupa. Menos poluição. Menos vingança. Menos acidentes. Menos ignorância. Menos corrupção. Menos preconceito.

E se você acha que estou sonhando, então, desejo MAIS sonhos para você. Todos os sonhos, os que nos fazem sorrir, voar, e os que nos fazem ultrapassar fronteiras e realizar. MAIS realizações.

Portanto em 2010 eu desejo pra você MAIS.

Mais resolução. Mais paz. Mais saúde. Mais sorrisos. Mais Sol. Mais amizade. Mais amor. Mais amores. Mais grandes amigos. Mais abraços. Mais calor. Mais família. Mais valores. Mais sucesso. Mais beleza. Mais equilíbrio. Mais aceitação. Mais fé. Mais liberdade. Mais leveza. Mais alegrias. Mais verdade. Mais respeito. Mais carinho. Mais cuidado. Mais natureza. Mais energia. Mais cor. Mais vida. Mais.

Em 2010 eu desejo, pra mim, pra você para o mundo, o simples, o básico, O TUDO DE BOM.

FELIZ ANO-NOVO!

 

 

PS: eu não podia deixar de mandar um beijo para aquelas pessoas incríveis que sabem que fizeram meu 2009 especial, e com certeza estarão junto em 2010.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Just Other Happy Ending

    E vai acabar tudo mais uma vez. A viagem acaba, o pacote de biscoito acaba sem que se perceba, e sem que se queira o beijo também acaba. Dizem por aí que o amor também tem seus dias, mas isso é outra discussão. O fato é: tudo que começa, acaba. E aqui vamos nós, até o fim do texto ou do ano que está na tampa, a mais um fim.
    As promessas ficam e no fim vemos que uma duas foram cumpridas, mas vá lá, tudo bem. Se faz mais e mais promessas. Tudo bem, já acabou, já vai começar outro. Não é a primeira vez e lamentável, prometemos que próximo ano, próxima vez, cumpriremos todas. Tudo, para na próxima faxina de gaveta encontrarmos os papeizinhos acumulados num canto, junto a notas de banco e bilhetes de amor eterno que nem beijo selou.
    Um fim, automaticamente é um começo. Sem querer, de repente. E as folhas em branco, ficam abandonadas na mesa, ali, para quem quiser nelas fazer uma nova história. Para quem quiser pegar outra estrada, e aproveitar a curva para dizer que ah, é triste, é cruel é um fim, fazer o quê? Olhar com esse olhar de conformidade, se jogar na cama e chorar três dias pelo que não fez? Botar o vestidinho sacana, as unhas vermelhas aonde não deveriam estar, o salto alto, sair e rir pelo o que foi bom, cabeça erguida para o que vem? E agora, José?
    Devemos chorar por tudo que não fizemos e deixamos de fazer, e principalmente porque é tarde demais até para chorar, porque não há nada a ser feito, a não ser o clichê básico da vida, da literatura, do mundo, de seguir em frente. Não tem jeito. Para o coração e para si mesmo não se mente e não se mentirá agora ou mais uma vez. Devemos sair vestidos de ousadia com as mãos, a cabeça e o corpo, não onde é certo, mas onde nosso coração nos leve. Nosso coração leve, nos levará até as nuvens, a lua, se quisermos. Nesses casos, não existe fronteira a não ser as próprias que você mesmo se impôs.    
    Tudo vai ter seu fim, inclusive nós. Com essa certeza desde sempre, adquirimos o olhar de conformidade e um “tudo bem” inquietador, sabemos que não, nunca estaremos preparados como realmente gostaríamos. Mas como proteção para não quebrarmos a cara e os dentes antes da hora, tentamos ser fortes e mostrarmos não sei para quem, que não, não somos sentimentais e fracos. Assim sendo, somos.
    Então, que termine o belo, e o incrível na hora certa. E que outro tão bom e incrível, de qualquer forma, menos irônica, se inicie de novo, em mais um amanhecer. Feliz 2009 que fica, feliz 2010 que vem!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Seu Destino a 20 km

Ele senta e olha o céu. É, parece que vai chover. O vizinho corta a grama e sopra um cheiro bom junto com o vento. Uma lembrança de infância remota. Os pássaros nas árvores. O vento… Para onde o levará dessa vez?

Interessante, deve ser. Pensa na vida. Olha para o carro, lembra das malas, pensa na estrada. Tudo sempre lhe aconteceu de repente, sem que pudesse premeditar. Queria, mas de repente, aconteceu. Despretensão funciona: é um querer e não querer, com aquela segurança de quem sabe que vai dar certo, se tu deixares um espaço e um tempo para dar certo. Se tu tiveres discernimento para lidar com calma e firmeza para decidir o que tu realmente queres. Porque quando se quer, não se grita aos quatro ventos, apenas se quer e no fundo, se sabe que se dará um jeito de conseguir.

Aonde estará ele daqui a quatro dias? Em que lugar? Com quem? Claro que ele pode imaginar. São opções. Qual das estradas seguirá? Ao mesmo tempo que não, gostaria de poder saber como seria seu futuro. Mas na estrada da vida, não há muitas placas de sinalização. Chegará ele, logo, ou demorará aonde quer chegar?

Liga a televisão, mas nela passam as velhas novidades de sempre. Desliga. Dá uma volta pela casa. Não há livro que o prenda. As músicas parecem tocar surdas. A inquietação é imensa. A inquietação de saber que a bomba poderá estourar a qualquer segundo e não saber qual deles será.

Tudo bem. Ele volta a sacada e senta ao lado do cachorro. Aos sábios cabem a espera, e ele aguentará. Em quatro dias? Fecha os olhos. Estará em algum lugar com as ondas quebrando na areia, a ilha ao longe e o céu mergulhando no horizonte. As cadeiras de frente para o mar. A cama arrumada, o vento balançando a cortina, a imagem. A lembrança do tom da voz. O toque de uma mão, da sua mão produzindo o toque em outro corpo.

Estará em algum lugar com liberdade, céu, sol e o seu sol, ela.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Jingle Bells e Rock’n’Roll

 

Tudo vai se repetir, quando ela andará pela casa enrolada na toalha. O pai vai olhar agradecendo por ter saído, finalmente, do banheiro. A mãe vai estar colada em outro espelho entre milhões de potes de creme e maquiagem. Ela vai cantar com a escova de cabelo. Uma Barbie cantando rock’n’roll. Vai por o vestido, subir no salto e vai ser só mais uma noite de natal.
Natal, natal. Dizem que é tempo de paz e reflexão. De unir as famílias, celebrar a paz. Porque, afinal é nascimento de Cristo. E Cristo é Cristo. Só que, como nem sempre a teoria se aplica à prática, cadê esse Natal?
O shopping lota, as ruas lotam, as lojas lotam. A paciência diminui. O estresse explode. Presentes, presentes, compras, compras, dinheiro. E o espírito natalino? E a paz, o amor nos corações? Ai dá feriado, povo brasileiro pensa em praia e churrasco. Vamos lá, todo mundo pegar a estrada. Não se lembra que é Natal, a não ser pelas compras. E pelo feriado, obrigado senhor, “eita coisa boa, né?”
Não. Não é, não.
O verdadeiro sentido do Natal perdeu-se em alguma esquina, em algum shopping Center, em alguma sacola de compras. Mas não está, nem nunca estará dentro de algum deles. São poucas as crianças que saibam Jingle Bells. Elas querem mais é saber do mais novo adquirimento eletrônico que seus pais o farão. Uns reclamam da música em outras versões. É, pelo menos, alguma coisa do Natal.
Estamos correndo e não sabemos para onde. Em baixo da árvore, encontremos talvez, ao invés de uma família unida, pacotes de presentes. Talvez o natal de paz, amor e reflexão fosse o natal do tempo de nosso avós, onde não existia recursos ou centros de compra.
O progresso tem dois lados. E nós temos um cérebro. Por que não, no lugar de um dezembro estressante e consumista, paramos e pensamos no verdadeiro sentido e razão de tudo isso. Nada material e caro nos faz tão feliz quanto um sorriso, um abraço e um  beijo de quem realmente se gosta. As melhores coisas não se compra. 
E o feliz natal, só se dará nas coisas simples e verdadeiras.
Então a família sairá de casa para mais uma noite de natal. A Barbie e seus saltos, a mãe e seus presentes, o pai e suas queridinhas. Sentarão-se com todos ao redor da mesa decorada, e riram como se fosse qualquer outro dia. Talvez o sentido esteja ali, sem dizer nada. Mas ele vem do coração de qualquer e cada um.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Curva acentuada à direita

Enquanto você olhar para o fim da estrada atrás de você, milhões de imagens passarão em vão, tentando fazer sentido e te confundindo cada vez mais. O passado pode dar algumas dicas, mas nunca indicará caminhos. Isso, porque tudo muda, porque nada igual. A bagagem pesa e cansa.

Então quando nada parecer fazer sentido, não há no que pensar a não ser seguir em frente. Não se sabe como, onde, e porquê. Se sabe apenas que se quer, e isso já é o bastante para arranjar um jeito. Quando se realmente gosta, não se pensa. E quando realmente queremos, pouco nos importa a não ser conseguirmos. Iremos cair e tropeçar, sejamos realistas. Faz parte do jogo e nos cabe entender que a razão da luz, no fim, é a escuridão.

A vida nem sempre será boa. Nem sempre seremos recebidos com flores, um sorriso verdadeiro e palavras carinhosas. Não será sempre dias ensolarados. Mas talvez, por esses exatos motivos que digam que a vida é uma festa. Sem eles não daríamos tanto valor, não teria tanto sabor, a vitória, uma simples hora de felicidade ao fim de tarde. Vai ser quente e fria e vai ser boa por isso. Pela chance do erro, ao risco e de se soltar em queda livre.

O dia não teria graça se não tivesse noite, bem como a noite não teria seu charme se não tivesse dia. A vida que sempre tentamos comparar a alguma coisa, a um fluxo inconstante, surpresa de manhã ou qualquer outra coisa que nos seja simpática, é isso. Simpática para quem quer, para quem a vê com olhos de desejo, para quem quer entendê-la simplesmente vivendo. Vai ser mais uma coisa, com dez mil explicações, teses e conceitos - como o amor, em anexo a ela - e uma única fórmula. Viver. Viver sem se importar. Viver bem, e viver intensamente. Tudo isso, só isso.

Para depois olhar para cima e ver um céu estrelado sobre sua cabeça, a brisa soprando leve nessa madrugada de verão e o luar iluminando a estrada a sua frente. As imagens ainda passam por sua cabeça, muita coisa fez sentido. E muita se fará fazer adiante. Nossa bagagem ainda será maior. Nosso caminho não termina aqui. Este é só mais um ilustre começo. É só mais uma parte da vida.